Aprendendo com o Livro dos Espíritos questão 131
Por demônios, segundo a acepção vulgar da palavra, se entendem seres
essencialmente malfazejos. Como todas as coisas, eles teriam sido criados
por Deus. Ora, Deus, que é soberanamente justo e bom, não pode ter criado
seres prepostos, por sua natureza, ao mal e condenados por toda a
eternidade. Se não fossem obra de Deus, existiriam, como Ele, desde toda a
eternidade, ou então haveria muitas potências soberanas.
A primeira condição de toda doutrina é ser lógica. Ora, à dos demônios,
no sentido absoluto, falta esta base essencial. Concebe-se que povos
atrasados, os quais, por desconhecerem os atributos de Deus, admitem em
suas crenças divindades maléficas, também admitam demônios; mas, é ilógico
e contraditório que quem faz da bondade um dos atributos essenciais de
Deus suponha haver Ele criado seres destinados ao mal e a praticá-lo
perpetuamente, porque isso eqüivale a Lhe negar a bondade. Os partidários
dos demônios se apóiam nas palavras do Cristo. Não seremos nós quem
conteste a autoridade de seus ensinos, que desejáramos ver mais no coração
do que na boca dos homens; porém, estarão aqueles partidários certos do
sentido que ele dava a esse vocábulo? Não é sabido que a forma alegórica
constitui um dos caracteres distintivos da sua linguagem? Dever-se-á tomar
ao pé da letra tudo o que o Evangelho contém? Não precisamos de outra
prova além da que nos fornece esta passagem:
Os homens fizeram com os demônios o que fizeram com os anjos. Como
acreditaram na existência de seres perfeitos desde toda a eternidade,
tomaram os Espíritos inferiores por seres perpetuamente maus. Por demônios
se devem entender os Espíritos impuros, que muitas vezes não valem mais do
que as entidades designadas por esse nome, mas com a diferença de ser
transitório o estado deles. São Espíritos imperfeitos, que se rebelam
contra as provas que lhes tocam e que, por isso, as sofrem mais
longamente, porém que, a seu turno, chegarão a sair daquele estado, quando
o quiserem.
Satanás é evidentemente a personificação do mal sob forma alegórica,
visto não se poder admitir que exista um ser mau a lutar, como de potência
a potência, com a Divindade e cuja única preocupação consistisse em lhe
contrariar os desígnios. Como precisa de figuras e imagens que lhe
impressionem a imaginação, o homem pintou os seres incorpóreos sob uma
forma material, com atributos que lembram as qualidades ou os defeitos
humanos. É assim que os antigos, querendo personificar o Tempo, o pintaram
com a figura de um velho munido de uma foice e uma ampulheta.
Representá-lo pela figura de um mancebo fora contra-senso. O mesmo se
verifica com as alegorias da fortuna, da verdade, etc. Os modernos
representaram os anjos, os puros Espíritos, por uma figura radiosa, de
asas brancas, emblema da pureza; e Satanás com chifres, garras e os
atributos da animalidade, emblema das paixões vis. O vulgo, que toma as
coisas ao pé da letra, viu nesses emblemas individualidades reais, como
vira outrora Saturno na alegoria do Tempo.
Pelo correr do estudo notaremos a justiça do Criador, como Sua bondade e
Seu amor. Ainda estamos no assunto dos chamados erroneamente de demônios,
que algumas religiões afirmam serem maus desde o princípio, e que ficarão
para sempre em lugares que também criaram, como sendo o inferno eterno. Um
punhado de homens esquece que tudo sofre a influência do progresso, e esse
progresso já se manifesta muito visível nas páginas do tempo, a nos
convidar a retificar os velhos erros de uma filosofia não menos velha,
carcomida pelas eras. Se foram criados demônios, carregando as nossas
paixões inferiores e apresentando as nossas próprias feições, claro que os
demônios fomos nós, antes de conhecermos a Verdade. As mudanças são leis
de Deus que dominam e orientam a eternidade das coisas. Nada fica
estático; tudo se modifica, e para melhor, desde as primeiras
manifestações de vida, até as potencialidades espirituais. Cabe a nós
outros procurarmos entender essas mutações ordenadas e induzidas pelo
próprio Criador.
Precisamos compreender que tudo existente na criação se encontra em
estágios diferentes uns dos outros, mas, em completo movimento pela força
do progresso, movimento esse a que podes chamar, como já foi feito antes,
de sopro de Deus. Disse Jesus, em se referindo aos Espíritos malfeitores:
“Eles não são maus, apenas ignorantes”. Eles merecem o perdão por não
compreenderem a força do Bem dentro de si mesmos, e somente o tempo poderá
despertá-los para a luz do verdadeiro entendimento. Toda a maldade, sem
exceção, desconhece a eficiência do amor. Depois que passam a viver no
regime da fraternidade, colhendo dos seus efeitos valiosos, esquecem-se
por completo do mal e condicionam a sua mente apenas às diretrizes da
caridade, que lhes mostra a salvação em todos os ângulos que se dispuseram
a trilhar.
É por isso que a Doutrina dos Espíritos, que revive o Cristianismo, afirma
e reafirma a não existência de demônios, tal como pintados por mentes sem
compreensão e por almas que desconhecem a bondade divina. Os demônios nos
quais podemos crer moram dentro de cada criatura que ainda não pode
eliminá-los. Eles se chamam: ódio inveja, ciúme, maledicência, orgulho,
egoísmo e outros tantos mais, que proliferam na sociedade que desconhece o
Cristo. Quem tem o céu no coração, quem tem a consciência tranqüila pelo
cumprimento dos deveres, somente cria e vê as coisas de fora que existem
por dentro de si. Essa é a lei dos reflexos.
É bom que pensemos nisto: se existem anjos, que foram sempre anjos, e
demônios, que foram sempre demônios, onde está a bondade de Deus que criou
Seus filhos na igualdade, com tendências diferentes? A razão caminha
igualmente para a perfeição e ela está se enriquecendo pela intuição
divina, de modo a aceitar a verdade, a única que fica de pé diante de
todas as circunstâncias, e é o tempo que vai falar, pelos acontecimentos,
a última palavra, sendo que os Espíritos benfeitores falam antes do
próprio tempo afirmar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário